quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ligue a tevê (ou veja na internet)



Ainda é novidade na televisão este programa da TV Brasil conduzido e pensado pelo cara de teatro Aderbal Freire-Filho. Acabei de ver uma das edições na página do canal na internet. Há outros lá - muitos. Nesta edição, Aderbal entrevista o escritor Ruy Guerra, o diretor teatral Ruy Guerra, o cineasta Ruy Guerra e outros Ruys que este Guerra comporta. Um programa despojado, inteligente, provocativo, instigante e divertido. Novidade na televisão que a TV Hamaca recomenda.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Aqui, ali, em todo lugar



"Gostaria de saber o que vai ser deste país. O que será deste maldito país?"

Parece desabafo de neodireitista que, a despeito do entusiasmo com o andar da carruagem no STF, jamais deixa de sentir o supremo prazer de celebrar o fato de se sentir superior a uma pátria de pobres sem educação? Pois não é: continuemos a leitura.

"O sr. X já estava acostumado com estes comentários. Era uma pergunta feita quase que invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, pelos seus clientes no últimos vinte anos."

A omissão do nome do personagem é apenas para destacar o conteúdo das ideias expressas neste texto narrativo, que a cada frase faz a gente pensar que se trata de uma ficção a partir da realidade braileira dos neo-aloprados de dias desses até hoje. Vamos em frente, tem mais:

"Tudo começou com aquele maldito governo trabalhista. Mandando todo o país para o inferno. E o governo que agora temos não é nem um pouco melhor!"

Diga aí se não parece a pronúncia revoltada que tanta gente usa no Facebook ou no Twitter, como a atribuir, em nível psicanalítico quase subterrâneo, os fracassos pessoais às maldades dos governos, especialmente quando se trata de governos eleitos por representar, agh, trabalhadores sem verniz... Tem mais, tem mais:

"Um bando de socialistas hipócritas! Olhe a que ponto chegamos! Não podemos nem arranjar um jardineiro decente nem empregadas!"

Precisa dizer mais? Bom, só pra fechar com um pensamento bem pequeno, típico de quem, mal tendo saído do corte econômico de renda modesta com a qual muitos pobres ainda sonham, já se acha diferenciado a ponto de desabafar:

"Não existe mais lealdade na classe baixa..."

Agora, os esclarecimentos: o que você leu acima não são trechos de um livro que acabou de ser lançado pelo jornalista Guilherme Fiuza, ou de um filme que acabou de ser feito por Arnaldo Jabor; menos ainda de uma seleção de crônicas que Ali Kamel lançou para lustrar seu currículo platinado.

O que você leu acima, entre aspas, são trechos do livro "Depois do funeral", da lavra literário-aristocrática de Agatha Christie, numa de suas inúmeras histórias de crime em família mais do que conhecidas pelos viciados neste hábito abominável chamado leitura. Ocorre que o livro se passa, óbvio, na Inglaterra da autora, num período logo a seguir ao fim da II Guerra, quando a penúria financeira e social fazia parte do quadro de consequências que o conflito deixou.

Os trechos - a fala de um personagem tão ocioso e desprezível quanto mais superior ele se julga - está entre as páginas 62 e 66. Representa um segmento de pensamento que, infelizmente, não é propriedade de um país em construção como o nosso território brazuca, mas uma postura comum a qualquer gente sem disposição para trabalhar, construir, refletir e seguir em frente. É um anti-ideário que enxerga no fracasso coletivo um bálsamo pra anestesiar suas próprias crises individuais. É algo humano demais pra ser propriedade de um povo só.

Uma pequena lição embutida no entrecho de um livro que o Leitor Bagunçado leu pela primeira vez quando tinha uns 16 anos - já lá se vão três décadas - e que agora tem o prazer de reencontrar, assim como um outro título de Agatha Christie, "A mansão Hollow", usufruído na semana passada.

Ficou impresssionado com as coincidências? Releia o post;  procure o livro nos sebos, compare, tente entender melhor sobre os países, as sociedades e os seres humanos. De quebra, ainda tem um crime a ser desvendado. Um crime literal, com sangue e tudo - nada dessa abstração conveniente chamada mensalão.

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